Windows 10: as grandes armas que o Hércules da Microsoft usará em combate

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Na mitologia grega Hércules, filho de Zeus, era visto como um campeão e um grande guerreiro. Diz a lenda que visando recuperar a sua honra, após ouvir o oráculo de Delfos, como penitência Hércules teria que executar doze trabalhos e, caso fosse bem-sucedido, ao final da sua jornada ele se tornaria um ser imortal.

Traçando um paralelo com o herói do passado, a Microsoft, de certa forma, pode se colocar numa posição similar. Aquela que já foi a maior empresa de tecnologia do mundo, hoje busca recuperar o seu prestígio em busca do primeiro lugar. Além disso, nunca antes na história a empresa ouviu tanto os seus consumidores como nos trabalhos de desenvolvimento do Windows 10.

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A nova versão do sistema operacional da empresa representa não apenas uma atualização de software, mas também uma mudança de paradigma no modelo de negócios, em que a companhia passa do status de “vendedora de um produto” para “prestadora de um serviço”. Com o mesmo sistema rodando em diferentes dispositivos, pela primeira vez uma companhia conseguirá concluir o ciclo de integração total entre todos os seus produtos.

Entretanto, embora o prenúncio do que vem pela frente seja bastante animador, isso não significa que na prática as boas novidades trazidas pela Microsoft em sua conferência realizada ontem (21) vão se transformar em sucesso imediato. A companhia terá pela frente uma série de missões complicadas, com batalhas duríssimas a serem travadas, antes de alcançar novamente a tão sonhada “imortalidade” no topo do ranking.

Listamos aqui as principais armas com as quais a empresa inicia 2015 e confrontamos cada uma delas com as difíceis missões que a companhia terá pela frente no mercado. O que será que o oráculo reserva para o futuro da gigante de Redmond?

1) Tudo é Windows 10: unificação sem precedentes

Se você, como eu, acompanha tecnologia há mais de uma década, certamente já deve ter lido ou ouvido em algum lugar o discurso de que no futuro “tudo seria integrado”. Em linhas gerais, esse sempre foi um dos grandes sonhos da indústria tecnológica e, embora muitos tenham conseguido chegar bem próximo disso – e estou falando aqui de Apple e Google, cujos ecossistemas estão hoje entre os mais completos do mercado – nunca houve uma sincronia tão complexa como a que a Microsoft se propõe a fazer com o Windows 10.

Desktops, notebooks, tablets, smartphones, wearables e até óculos holográfico estão na lista dos produtos que serão geridos por um único sistema. Aqui, estamos falando não apenas de tamanhos de tela diferentes, mas também de arquiteturas de sistema que até então eram incompatíveis. E mais: estamos falando de produtos com propostas de uso diferenciadas. Se na prática a integração funcionar tão bem quanto na demonstração da Microsoft, então estamos diante de um diferencial e tanto de mercado, algo que por enquanto nenhuma outra companhia conseguiu executar de forma plena.

2) Fala que eu te escuto: a volta do Menu Iniciar

Desde que o Windows 8 foi lançado, uma nova polêmica surgiu entre os usuários do SO. Poucos estavam interessados em saber do funcionamento em si do software, mas praticamente ninguém ficou indiferente ao fato de que o Menu Iniciar não estava mais lá. No Windows 8.1, a Microsoft tentou novamente forçar a barra, melhorando um pouco o acesso às funções, mas ainda assim, não era o Menu Iniciar.

Com o Windows 10, a Microsoft se redime desse “erro brutal”. Depois de abrir as portas para o programa Windows Insider, que hoje conta com mais de 1,7 milhão de participantes, e receber mais de 800 mil mensagens de feedback, a empresa voltou atrás e colocou de volta o Menu Iniciar em seu sistema. Pode parecer algo sem importância, mas a quantidade de pessoas que adotou essa forma de usabilidade de software é imensa e muitas delas não estão dispostas a reaprender a usar um SO. Lembre-se: a ideia é que as coisas sejam mais fáceis e naturais e não apenas que elas sejam uma mera novidade.

3) Cortana: com você em qualquer lugar

A assistente pessoal Cortana surgiu depois da Siri e depois do Google Now. Ela também não é a primeira a aparecer numa versão desktop. Entretanto, o principal segredo aqui parece ser a simplicidade de interação com a ferramenta e o fato de ela fazer buscas tanto online quanto offline. Além disso, como vimos na demonstração inicial, ela parece capaz de contextualizar melhor as informações que ouve (ou lê) do que os serviços concorrentes.

Se na prática ela se mostrar tão precisa quanto o que vimos na demonstração, então a Cortana poderá se tornar também um diferencial não apenas do mundo dos smartphones. O recurso que permite que o usuário dite textos para a ferramenta faz com que a interação entre homem e máquina se torne ainda mais natural, ampliando as possibilidades de uso da tecnologia.

4) Spartan: um navegador como você nunca viu

Venha cá, vamos falar a verdade: o Internet Explorer ultimamente só servia mesmo para baixar outro browser. Sim, a gente sabe que ele é um bom navegador, mas já faz um bom tempo que Mozilla Firefox e Google Chrome já o superaram em ferramentas e em velocidade de navegação. Para quem já fui líder de mercado um dia, a morte do IE era algo tão anunciado que ninguém parece ter dado muita bola para isso.

Com o Spartan (nome ainda provisório), a empresa busca renascer nesse segmento. A primeira promessa é a de um navegador mais leve e mais rápido – algo que só poderá ser comprovado quando ele for disponibilizado para testes. Além disso, ele traz logo de cara três outras novidades: Cortana integrada, um exclusivo modo de leitura nativo, e um modo de leitura e anotações, que torna muito mais fácil (e rico) o compartilhamento de conteúdo. Definitivamente, a Microsoft pode voltar a brigar nesse segmento.

5) Office grátis: o pacote de aplicativos que você precisa

Pergunte para qualquer pessoa que tem o Windows como o sistema operacional qual é o aplicativo mais importante ou mais usado no sistema. Tenho certeza que a maioria das respostas deve incluir os aplicativos do pacote Office, em especial Word, Excel e Power Point. Por mais que eles sejam muitos bons, pouca gente está disposta a pagar R$ 300, R$ 400 reais neles. E mais: os concorrentes, que estavam anos-luz atrás nesse segmento, hoje já disponibilizam produtos equivalentes no mercado.

Para o Windows 10, a Microsoft planeja enviar já o pacote básico do Office gratuitamente. Ou seja: se você comprar um PC, um notebook, um tablet ou um smartphone, os três aplicativos que você tanto precisa estarão lá, gratuitos e, o melhor de tudo, adaptados para cada um dos formatos de tela. Essa tranquilidade para o consumidor, que ao adquirir o SO já sabe que os aplicativos que ele precisa estarão lá, pode se revelar um diferencial e tanto no mercado.

6) Apps universais: o fim do mimimi da falta de apps

Se você é proprietário de um smartphone com Windows Phone há mais de um ano, certamente já ouviu o argumento “mas o Windows Phone não tem apps kkkk”. Isso até foi verdade no começo da plataforma, mas já ficou para trás há muito tempo. O que falta, sim, é atenção por parte dos desenvolvedores, em especial dos grandes apps, em criar versões dos seus aplicativos para o SO da Microsoft por uma série de razões que não vem ao caso nesse artigo.

Entretanto, com o lançamento do Windows 10, a situação muda de figura. Todos os apps disponíveis para Windows RT (não estamos falando de arquivos EXE), automaticamente poderão ser executados também no celular. Com o aumento do alcance no número de usuários, provavelmente crescerá também o interesse dos desenvolvedores em estarem presentes na vida dos consumidores. Se isso, de fato, se tornar realidade, espere uma loja da Microsoft tão forte quanto a da Apple e a da Google. E daí a Microsoft vai brigar de igual para igual também no mobile.

7) 2 em 1: modo teclado/touch inteligente

Outra novidade trazida pelo Windows 10 deve tornar ainda mais fácil a utilização de modelos híbridos, ou seja, aqueles que misturam características de tablet com notebook. No canto inferior direito, um novo ícone surge automaticamente na tela quando você alterna o seu aparelho para o modo tablet ou para o modo desktop. Um recurso simples, mas que fazia uma falta danada.

E mais: qual outro sistema operacional oferece algo do gênero? Por enquanto, nenhum. É por essas e outras pequenas coisas que a Microsoft tem a oportunidade – se fizer o seu trabalho direito, é claro – de sair na frente da concorrência, pois essa é uma tendência que deve ser amplamente adotada futuramente. Garantindo desde já uma transição suave, a empresa garante também a manutenção da sua parcela de consumidores no futuro.

8) Nova interface unificada: um para todos

Outra grande vantagem da utilização de um mesmo sistema operacional em todos os aparelhos da empresa é a identidade visual. Dessa forma, aqueles que já contam com um PC ou notebook e estão acostumados a ter experiências com o Windows ficam mais propensos a adotar um smartphone com a mesma interface em um momento de dúvida. Além do fato de que, é claro, isso facilita um monte a vida daqueles que tem menos familiaridade com os recursos de múltiplos sistemas.

Se os planos da Microsoft estiverem certos, outro benefício que pode surgir no futuro é o fato de que praticamente não haverá fragmentação alguma entre os múltiplos aparelhos com Windows 10 existentes no mercado. Esse é um dos maiores problemas que o Android enfrenta na atualidade e também é um dos maiores orgulhos da Apple com o seu iOS.

9) One Drive: no centro de tudo

Ao pensar em no OneDrive, muitos usuários associam a ferramenta à possibilidade de salvar arquivos online. De fato, essa é apenas uma das virtudes desse recurso que, mais do que nunca, será de suma importância no Windows 10. É por meio dele que será feita a sincronização de informações entre todos os dispositivos que estiverem executando o mesmo SO.

Tudo bem, vamos admitir: isso não é uma novidade e outras empresas já desempenham essas atividades muito bem. Entretanto, é de fundamental que essa integração seja feita com muita naturalidade e o fato de o OneDrive suportar toda essa nova carga de informações circulando será a prova definitiva de que o Windows 10 pode funcionar.

10) Windows 10 nos grandes escritórios

Não é segredo para ninguém que grande parte da rentabilidade que a Microsoft obtém com o Windows vem das licenças empresariais. Essa é uma fatia do bolo que a empresa não pretende perder de forma alguma, mas para isso é preciso se preparar. Com o lançamento do Surface Hub, por exemplo, a empresa firma o pé em um terreno pouco explorado, o das apresentações e videoconferências.

Como o sistema em questão é o mesmo que estará nas máquinas que os funcionários utilizam, e por conta disso, muito provavelmente estará no PC que eles utilizam em casa, o círculo se fecha a empresa consegue agradar a todos. Prover soluções empresariais eficientes é ainda hoje o que mantém a Microsoft grande. Por isso, a atenção terá que ser redobrada nesse quesito para que nada seja perdido.

11) Xbox One e PC: integração na medida certa

Outro setor com o qual a Microsoft precisa se preocupar é o mercado gamer. No primeiro ano de vida do Xbox One, os números de vendas do console ficaram abaixo dos do seu principal concorrente, o PlayStation 4. Para tentar recuperar o terreno perdido, a Microsoft propõe que o Windows 10 seja o elemento de integração entre console e PC, permitindo que os jogadores façam streaming do Xbox One para outros dispositivos com Windows 10.

Além disso, será possível jogar online no Xbox One com jogadores de PC, desde que o jogo em questão tenha suporte para isso. No final das contas, o novo conjunto pode representar um diferencial de mercado para o console da Microsoft, fazendo com que as vendas cresçam. Se isso vai acontecer, não sabemos, mas não deixa de ser uma tentativa válida da Microsoft em se armar para enfrentar melhor o seu poderoso rival.

12) HoloLens: uma visão do futuro

O HoloLens, o visionário óculos holográfico que a Microsoft apresentou em seu evento, não é algo que você vai ver tão cedo. Se tomarmos o Oculus Rift como parâmetro, já faz pelo menos dois anos que ele está circulando nas mãos de desenvolvedores e até gora nada de chegar ao mercado. Acredite: esse produto não será realidade em 2015 e pode ser até que nem mesmo em 2016 ele chegue às lojas.

Entretanto, como demonstração de potencial tecnológico da empresa, trata-se de uma aposta válida. Aqueles que tiveram a oportunidade de realizar os primeiros testes com o produto foram unanimes em afirmar que “nunca viram nada igual”. Portanto, há muito potencial para ser explorado. Independente de quando ele chegue às mãos do consumidor final, o fundamental nesse caso é marcar território ou o que chamamos de “impressionar as visitas”. Nesse quesito, a Microsoft se saiu muito bem.

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No mundo tecnológico um ano é uma verdadeira eternidade. Muita coisa pode mudar até o lançamento oficial do Windows 10 no mercado – algo que não vai acontecer no primeiro semestre. Porém, as primeiras impressões mostram que há um potencial imenso em tudo aquilo que a empresa se dispôs a entregar para os consumidores em breve. A receptividade inicial por parte do público, como você já pode ter percebido nos comentários aqui no TecMundo, também foi majoritariamente positiva.

Com as cartas na mesa, resta agora saber como os concorrentes vão reagir às jogadas da nova Microsoft. Independente da sua preferência (galera do Android, turma da Maçã, é com vocês), temos que admitir que, ao menos neste momento, a Microsoft atraiu a atenção do mundo para o que ela pode fazer. Resta saber se 2015 marcará o início da sua escalada rumo ao topo novamente ou se a empresa se transformará em apenas mais uma no mercado.

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