Belo Horizonte sediou no primeiro dia deste mês um Hackaton brasileiro apenas para garotas, organizado pela empresa de negócios digitais Hotmart. A ideia foi reunir em uma maratona de programação as mulheres da área de desenvolvimento para fortalecer e valorizar a atuação feminina no mercado de trabalho, por meio de uma plataforma social e colaborativa, a Herspect Workplace. A premiação individual foi um tour de quatro dias pela NASA Kennedy Space Center, na Flórida, e o TecMundo acompanhou de perto todo o evento.

O desafio da maratona hacker era criar uma plataforma colaborativa para a avaliação de como estabelecimentos tratam as mulheres

As 40 participantes, das mais de 400 registradas no processo seletivo, vieram de várias regiões do Brasil — e até de fora — e, nas 13 horas de competição, precisaram vencer as diferenças, suas próprias limitações e o cansaço para completar o desafio: criar um software em que as pessoas possam avaliar o tratamento dado às meninas em estabelecimentos cadastrados.

Tudo foi levado em consideração no fluxo de trabalho: cadastro de usuários e de empresas, login, avaliação, entre outros pontos. A linguagem utilizada foi Java e foram divididos grupos de quatro pessoas. Um sensei (responsável sênior) atuou ao lado de um especialista para avaliar o desempenho de cada uma e acompanhar a codificação. Ao longo dos exercícios, as integrantes alternaram a cada 7 minutos entre as funções de “pilota”, “copilota” e “plateia” — as primeiras comandavam as ações enquanto as outras opinavam e pensavam em alternativas ao fundo.

Tão longe, tão perto

Toda a turma acordou bem cedo para estar no alto do Espaço Vista, às 8 horas, quando começou o credenciamento. Mais da metade das participantes vieram de longe de Belo Horizonte e a grande maioria que viajou só pôde estar lá porque a Hotmart arcou com as despesas de viagem, estadia, translado e alimentação. A cubana Yenisei Delgado, 32 anos, foi uma delas.

A cubana Yenisei Delgado

“Uma amiga falou do Hackaton depois de ver o evento no Facebook e nos inscrevemos. Não duvidei que era capaz, mas que talvez não fosse aceita. Quando recebi a notícia, fiquei feliz por mim, mas triste porque minha amiga não passou e queria que ela viesse comigo. Ela me apoiou e disse que eu teria que vir e dar o melhor de mim. Devo muito a ela essa oportunidade de estar aqui”, emocionou-se.

Adheli Tavares, de 27 anos, cresceu aprendendo informática em Tabatinga, município do interior do Amazonas que faz tríplice fronteira com a Colômbia e o Peru e conta com pouco mais de 50 mil habitantes. Em Belo Horizonte, continuou uma história que começou quando ela ainda era pré-adolescente.

Adheli Tavares

“Quando tinha 12 anos comecei a fazer aula de informática básica com um PC, em 1998. No interior, existiam cotas para estudantes e as opções de curso que me ofereciam já me limitavam a ser professora. E eu dizia que não queria, procurava algo para mexer com computador. Quando falei sobre engenharia, me falaram que era coisa de menino, que era muito difícil. Então busquei outra coisa que tivesse computador, que foi Processamento de Dados. Eu fui a única pessoa que passou por lá e até saí no jornal, sabe como é cidade pequena, todo mundo conhece todo mundo.”

Lahana da Silva Lameira

Já Lahana da Silva Lameira, de 22 anos, chegou de Florianópolis sem nunca sequer ter viajado de avião anteriormente. Para ela, a coragem de enfrentar o desconhecido por si só já serviu de lição. “Fiquei muito ansiosa porque nunca tinha andado de avião e nem sabia como funcionavam aeroportos. Só de ter vindo para cá e estar presente com meninas de vários lugares e que programam com linguagens diferentes já é muito legal. Foram mais de 400 inscritas, muita gente. E muitas mulheres não se inscreveram por medo do que iriam encontrar aqui ou de virem sozinhas. Fiquei muito feliz de estar entre as 40 selecionadas.”

Elas em seus devidos lugares

Para quem está lendo agora, especialmente homens — e também para todos os outros gêneros —, este é um momento de fazer uma grande mea culpa, porque eu, você e muita gente com certeza já dissemos ou agimos de uma forma machista e hostil, consciente ou não. E não há melhor forma de valorizar o empoderamento desse evento e sermos todos melhores do que demonstrar a hostilidade que essas meninas enfrentam.

Uma das coisas que mais me incomodou foi a forma como os homens me intimidaram, principalmente quando estava no começo

“Quando comecei na programação, tive que provar que era capaz de realizar as tarefas. Foi um começo difícil, mas depois que consegui ganhei um impulso para continuar”, recordou Yenisey, engenheira informática.

“Uma das coisas que mais me incomodou foi a forma como os homens me intimidaram, principalmente quando estava no começo, aprendendo as coisas básicas. Trabalhei com pessoas que me deixava lá embaixo, muito mal, levava isso para casa e me deixava triste. Chorava várias vezes. O que me ajudou foi meu melhor amigo, que eu sabia que tinha um conhecimento muito maior do que o meu, mas nunca fazia questão de mostrar isso. Os amigos ajudaram muito, assim como outras pessoas no próprio trabalho”, disse Dani Marinho, de 22 anos, programadora de sistemas de informação.

Ambientes de programação costumam ser machistas com as mulheres

“Quando fui estudar em Manaus em 2006, percebi que não só me tratavam ‘como mais uma no bolinho’ por vir do interior, mas que também era o ‘bolinho do bolinho’ porque eu era uma das poucas meninas na Escola Superior de Tecnologia (EST). No primeiro período, chegava em casa chorando, me sentindo burra, sem saber o que estava acontecendo. Hoje em dia, quando a gente vai definir o início de um projeto é difícil porque os caras dizem ‘eu sei, eu trabalhei com isso há muito tempo e então vai dar certo’. Eles puxam muito para o lado deles, nem sequer ouvem o que você está dizendo. Em reunião diária, quando as coisas não dão certo e você critica, falam que você está estressada, surtando e se preocupando demais; com TPM, esse tipo de comentário. Até quando eu falei sobre esse evento com outros homens, que é um Hackaton só para meninas, eles falaram ‘ah, então tá explicado’. Como se eu tivesse sido chamada só porque sou menina. Bateu esse sentimento ruim, mas deixei para lá, fiquei feliz de estar aqui”, comentou Adheli.

É bom lembrar que mulheres como Ada Lovelace, Carol Shaw, Grace Hopper e Margaret Hamilton foram pioneiras na programação

“Nas minhas experiências, acredito ter sido menos afetada porque sempre convivi mais com homens e acho que tive sorte. Mas já presenciei gente falando ‘homem é melhor que mulher’. O cara simplesmente falou que tem preconceito e que é mais inteligente. São situações que me deixaram mal e pensei que tinha que mudar isso definitivamente. Está enraizado na cultura que mulher ‘é mais ou menos’ e que as pessoas primeiro prestam atenção nos homens e depois olham nosso trabalho. Atualmente, dou aulas no JS4Girls, um projeto gratuito e voluntário com o objetivo de empoderar e inserir mulheres na área da tecnologia, ensinando-as inicialmente a construir um site com HTML/XSS e depois a lógica de programação com a linguagem Javascript. Muitas mulheres têm medo do que vão encontrar nessa área então temos as encorajado a pelo menos conhecer”, conta Lahana.

A cientista em computação e palestrante Camila Achutti

Todas essas programadoras olharam atentamente, sorrindo, quando a palestrante Camila Achutti — formada em Ciência da Computação pela Universidade de São Paulo (USP) e engajada na luta por mais mulheres na tecnologia com o blog Mulheres na Computação — bem lembrou: Ada Lovelace criou o que seria o primeiro algoritmo no século 19 e Grace Hooper foi a analista de sistemas que, nas décadas de 40 e 50, inventou a base para a criação da linguagem COBOL.

Além delas, tantas outras, como Carol Shaw e Margaret Hamilton, estiveram no começo de toda essa história. Portanto, estranho mesmo é esse setor ser dominado pelos homens: as mulheres querem, no mínimo, estar no lugar que conquistaram, é um direito delas.

Um desafio e tanto

Depois do lançamento do desafio e do almoço, as equipes conseguiram completar o primeiro dos 24 passos traçados para que a plataforma Herspect Workplace pudesse funcionar. Isso aconteceu somente às 15h45 e muita gente começou a suspeitar que o trabalho não pudesse ficar pronto no horário delimitado, às 20h.

Contudo, as fases seguintes foram alcançadas mais rapidamente, já que as equipes passaram a se entrosar e entrar no ritmo adequado. Janaina Primon, analista de sistemas de uma empresa de locação de veículos, esteve no evento para acompanhar a performance e destacou o esforço coletivo como um dos exercícios mais frutíferos dessa jornada.

Organograma do desafio para rodar a plataforma Herspect Workplace

“Acho que as pessoas do setor de tecnologia já tendem a ser introspectivas e atuar sozinhas. Mas não é assim, para você construir qualquer coisa em qualquer área é preciso o trabalho colaborativo. Ver as mulheres fazendo coisas em conjunto para construir a mesma plataforma é fantástico e promove a troca de ideias. Toda vez que você constrói um produto, um software ou uma plataforma, precisa de muita gente, então é necessário um ambiente onde as pessoas possam dar ideias e também ouvi-las.”

As pessoas do setor de tecnologia já tendem a ser introspectivas e atuar sozinhas. Mas não é assim, para você construir qualquer coisa é preciso o trabalho colaborativo

Em seguida veio o intervalo para café e descanso antes da reta final. Dani Marinho, que estranhou inicialmente a codificação em uma linguagem que não domina, decidiu pensar nas alternativas para a equipe e até deixou um pouco de lado o sonho da premiação com viagem à NASA.

A analista de sistemas Janaina Primon

“Para você se candidatar para um Hackaton, precisa estar disposto a trabalhar com pessoas e linguagens que você não conhece. Tenho uma raiz técnica voltada para a Microsoft e aqui o projeto está em Java. Mas meu Java é de faculdade, é básico. Avisei para as meninas que ia precisar de muita ajuda e, apesar da sintaxe ser semelhante, quando você está mexendo com frameworks a coisa começa a ficar complicada”, comentou. “Sobre o time, você tem que aprender uma maneira de falar, porque você não sabe como ela vai reagir com seu comentário, principalmente porque uma está olhando para o código da outra.”

A premiação

Pouco antes do término da maratona hacker, todos estavam apreensivos e não era tanto com relação à vencedora do prêmio: por pouco, por muito pouco, elas não conseguiram completar toda a plataforma Herspect Workplace. O árduo trabalho e a reta final de programação foram emocionantes, as meninas terminaram suas codificações com os olhos marejados, orgulhosas — e com razão — por conseguirem realizar um trabalho incrível em tão pouco tempo.

A plataforma Herspect Workplace será concluída e todas as programadoras do Hackaton for Girls Only serão nomeadas, certificadas e reconhecidas como coautoras do projeto

Antes do anúncio sobre quem conquistou a viagem para a NASA, uma revelação que agradou a todas: a Hotmart e as participantes vão concluir e implantar a Herspect Workplace e todas as programadoras do Hackaton for Girls Only serão nomeadas, certificadas e reconhecidas como coautoras do projeto.

Sobre a grande vencedora… Lembra da Dani Marinho? Bem, para a surpresa da belo-horizontina, foi ela quem ficou com a viagem. “Depois da palestra da Camila pensei ‘só tem gente muito f*%a aqui, nunca vou ganhar’. E era uma tecnologia que não dominava, então tive muita dificuldade. Como achei que não ia ganhar, tentei ajudar e conhecer pessoas novas, o que para mim já é uma vitória. Quando falaram meu nome, não acreditei. Passaram-se um milhão de coisas pela minha cabeça. Sou uma pessoa que ainda tem dificuldades de acreditar em mim mesma, de saber que eu posso. E hoje foi uma lição de vida.”

A vencedora Dani Marinho ao lado de sua equipe

E o que ela quer a partir de agora? “O próximo passo, além de visitar a NASA, é contribuir com as pessoas, acreditando no que eu posso fazer. Quero encontrar outras pessoas que queiram mudar o mundo e dar o meu melhor para fazer acontecer.”

Por muitos hackatons para meninas

Depois de toda a maratona, as programadoras fizeram a festa e foi fácil ouvir em todos os cantos do salão: nenhuma que entrou ali saiu a mesma pessoa. Nesse momento, a mulher em que as meninas se viram no início do evento também voltou a ser uma “garotinha”.

Talvez nunca tenham falado para essas garotas: vocês podem! Vocês são f*%a! Vocês têm que fazer!

“Quando a gente começa a fazer esse tipo de coisa, não sabe onde elas vão chegar. No início do meu blog, não tinha noção do que estava causando e aqui eu vi de perto. Participei de alguns Hackatons e esse foi colaborativo, com todo mundo trabalhando no mesmo projeto, não tinha muita competição. Elas ainda não têm ideia do que construíram. Quando colocarem o projeto em produção e a galera começar a falar é que vão ter a real noção do volume e do impacto do trabalho que realizaram”, celebrou Camila Achutti, emocionada.

A palestrante Camila Achutti e a idealizadora do Hackaton for Girls Only, Josie Ribeiro

A idealizadora do projeto na Hotmart, Josie Ribeiro, resumiu todo o orgulho de ver as programadoras trabalharem tão bem juntas. “Só de promover um Hackaton feminino, um evento que a gente achou que era o básico para a gente encorajar essas meninas a seguir na área, é um passo muito importante para a Hotmart e para essa mulheres confiarem mais em si em um mercado que parece tão hostil para elas. Talvez nunca tenham falado para essas garotas: vocês podem! Vocês são f*%a! Vocês têm que fazer!”

E, se depender do resultado dessa primeira edição, vem muito mais por aí: “Sinto muito orgulho por elas terem feito valer o quanto as pessoas as encorajaram e no final entenderem que precisam acreditar mais em si mesmas, que são capazes. Aproximar mais as comunidades, mais representativas e maiores. Pensar em mais mentores para essas meninas e trazer elas mais para perto. Só tende a crescer, algo que já é muito grande.”