Como os astronautas se alimentam no espaço?

Desde o início das viagens espaciais, a alimentação consumida por astronautas mudou muito. Hoje, os pratos se assemelham aos que comemos aqui na Terra.

Bandeja usada pelos astronautas da estação Skylab (Fonte da imagem: NASA)

Como todos sabem, pizzarias e restaurantes chineses não fazem entregas no espaço. Por isso, antes de partirem, astronautas precisam abastecer a nave com alimentos especialmente preparados e embalados para o consumo fora da Terra.

Grosso modo, esses “quitutes” especiais precisam durar bastante sem refrigeração e, principalmente, serem fáceis de preparar. Afinal, além do ambiente de microgravidade impor certas dificuldades em tarefas simples e rotineiras, os astronautas também precisam aproveitar ao máximo o tempo em órbita para executarem seus trabalhos.

Felizmente, houve uma evolução muito grande no quesito alimentação. As guloseimas espaciais passaram de esquisitos tubos de comida em pasta para pratos que se parecem muito com os que temos aqui na Terra.

As primeiras viagens

Alimentos usados pelos astronautas dos projetos Mercury e Gemini (Fonte da imagem: NASA)

Como sempre, os primeiros desbravadores de um ambiente desconhecido passam pelas maiores dificuldades. Ninguém sabia, ao certo, como é que uma refeição poderia ser feita no espaço, mas um detalhe era certo: pedaços dos alimentos, como migalhas, não podiam escapar e ficar flutuando pela nave. Isso poderia causar acidentes que colocariam em risco a vida ou a saúde do astronauta.

Durante o primeiro voo tripulado ao espaço, em 1961, o cosmonauta soviético Yuri Gagarin levou comida processada em embalagens que lembram os tubos de pasta de dente. Eram mais de 300 gramas de carne em forma de purê e pasta de chocolate. Nada mal para uma missão que durou 1 hora e 48 minutos.

Tripulação da Estação Espacial Internacional se alimentando (Fonte da imagem: NASA)

John Glenn, o primeiro norte-americano a ir ao espaço (1962), tinha como parte de sua missão se alimentar em um ambiente de microgravidade. O teste foi feito para avaliar se havia alguma dificuldade no processo de engolir o bolo alimentar. Felizmente, Glenn provou ser perfeitamente possível comer no espaço. Inclusive, uma das bebidas consumidas por ele enquanto estava em órbita está ao alcance de todos nós: suco Tang.

Mas foi com o projeto Gemini, em 1965, que o cardápio começou a melhorar. As comidas em tubo, que os astronautas detestavam e não tinham vontade de comer, foram abandonadas. Parte dessa decisão se deu ao fato de que a embalagem em si chegava a pesar mais do que o alimento. E, como é de se esperar, quanto mais leves os materiais a bordo da nave, melhor.

Nesse período, foram desenvolvidos novos métodos de reidratação de alimentos e, também, uma espécie de revestimento à base de gelatinas que evitava a liberação de migalhas. Com isso, o cardápio foi ampliado e os astronautas puderam comer camarão, frango, vegetais, torradas e pudins, tudo isso acompanhado de suco de maçã.

Embalagem spoon-bowl, com válvula para a entrada de água quente (Fonte da imagem: NASA)

A variedade alimentar continuou a crescer durante as missões do projeto Apollo (1968-1975). Graças à disponibilidade de água quente dentro da espaçonave, astronautas podiam preparar pratos cada vez mais elaborados, a partir das comidas desidratas que levavam para o espaço. Foi nesse período que surgiu a “spoon-bowl”, uma embalagem especial que permitia aos astronautas se alimentar usando uma colher.

Em 1975, a alimentação dos astronautas serviu como uma espécie de intercâmbio cultural. Em uma missão conjunta do Projeto Apollo e do programa espacial soviético, havia latas com língua de vaca, pão russo e tubos de caviar e da sopa ucraniana borscht. Por sinal, os tubos dessa sopa foram etiquetados com a palavra “vodka”, uma piada, já que os profissionais não podem consumir álcool no espaço.

Finalmente, com a estação espacial Skylab, colocada em órbita pelos Estados Unidos em 1973, os astronautas tiveram acesso a um refrigerador, que permitia manter alimentos perecíveis e congelados, como carne e sorvete, armazenados por mais tempo. Os participantes do projeto também tiveram o privilégio de comer em uma espécie de refeitório, com bandejas especialmente preparadas para aquecer alimentos e evitar que eles flutuassem.

Alimentação no espaço hoje

Como é de se imaginar, muitas barreiras foram vencidas e, hoje, a alimentação não é mais um problema para os astronautas. Frutas e vegetais que podem ser armazenados sem refrigeração são comidos normalmente por esses profissionais. Além disso, as comidas desidratadas estão tão boas e variadas que excelentes banquetes podem ser apreciados em órbita.

A aeronave possui dispositivos especiais para aquecer os alimentos e, também, para “despejar” água quente naqueles que precisam ser preparados. Tudo isso é feito de maneira segura e, mais importante, sem que migalhas escapem e fiquem flutuando pelo ambiente.

Parte dos alimentos levados ao espaço também é tratada com radiação ionizante, responsável pela destruição de bactérias, vírus e micro-organismos que o alimento possa conter. Apesar disso, esses alimentos são seguros para o consumo humano, já que não chegam a se tornarem radioativos.

Castanhas, barras de cereais e biscoitos são alimentos consumidos naturalmente pelos tripulantes. Algumas porções, entretanto, são do tamanho ideal para serem comidas por inteiro, sem a necessidade de mordê-las. Com isso, evita-se novamente, sujeira no ambiente.

Diversas bebidas também são fornecidas em forma desidratada, facilitando assim o preparo para o consumo. E, por incrível que pareça, os astronautas também têm condimentos especiais a bordo, como catchup e mostarda. Há também sal presente em uma solução líquida, e pimenta em forma de pasta, para que os alimentos possam ganhar um sabor adicional.

Sabor diferente

Cientistas afirmam que o sabor dos alimentos em um ambiente de microgravidade é diferente. Existem pelo menos duas razões para isso. A primeira é o fato de que o aroma dos pratos, que possui um papel muito importante no gosto que sentimos dos alimentos, não funciona da mesma forma no espaço. Sem sentir o cheiro da comida, ela parece ter menos sabor.

Além disso, os fluídos corporais dos humanos no espaço acabam se acumulando na parte superior do corpo, causando congestão nasal. Quem já se alimentou com gripe sabe que, nos geral, os alimentos ficam bem menos saborosos nessas condições.

Cuidados nutricionais

Profissionais preparam vegetais para o processo de desidratação (Fonte da imagem: NASA)

Variedade é o que não falta. Para ter uma ideia, antes de partir, os astronautas russos da ISS podem escolher entre mais de 300 pratos para o consumo. Há também a disponibilidade de comida japonesa, chinesa, coreana e de outras nacionalidades.

Porém, não basta o alimento ser aprovado apenas pelo gosto dos astronautas. Uma equipe de nutricionistas também atua no sentido de fornecer os nutrientes necessários para a vida no espaço. Entre as diferenças, estão os fatos de que astronautas em órbita precisam de menos ferro e de mais cálcio e vitamina D do que quando estão na Terra.

Em um futuro próximo

Representação artística de estufa de cultivo em Marte (Fonte da imagem: NASA)

Até o momento, as condições atuais de armazenamento e consumo dos alimentos têm servido bem às missões executadas pelas diversas agências espaciais ao redor do mundo. Porém, com os avanços na exploração espacial, o tempo de permanência dos astronautas fora da Terra pode aumentar consideravelmente. Nesse caso, pode não ser possível levar alimento suficiente para tantos dias.

É preciso encontrar uma fonte de nutrição que seja renovável e, por isso, muitas pesquisas estão sendo realizadas com o cultivo de plantas em ambientes de microgravidade. Dessa forma, se algum dia o ser humano viajar para Marte, por exemplo, poderá plantar o seu próprio alimento.

Quem sabe, no futuro, nossos bisnetos não estejam em alguma rede social, brincando com a continuação de Colheita Feliz, desta vez ambientada em outros planetas?

Sorvete da NASA no Tecmundo

O Tecmundo teve acesso à uma sobremesa vendida no Kennedy Space Center, nos Estados Unidos. De acordo com dados da embalagem, esse tipo de guloseima foi desenvolvido durante as primeiras missões do projeto Apollo e é preparado por meio de uma técnica de desidratação conhecida como liofilização.

Nesse processo, o alimento é congelado a uma temperatura de -40 ºC e, depois, a água é retirada por sublimação, passando do estado sólido diretamente para o gasoso. Isso faz com que os alimentos perecíveis durem mais tempo e não percam nutrientes.

O que achamos da sobremesa? O consenso geral foi de que morder sorvete desidratado é um bocado esquisito. O sabor é satisfatório e, depois de engolido, é possível sentir o gosto de um sorvete de flocos comum. Mas é claro que, tomar um sorvete de verdade, aqui na Terra, continua sendo muito melhor.

Confira a nossa galeria de fotos!

 

 


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